segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

A Institucionalização do "barraquismo"
 
 
Cada dia mais me convenço de que as coisas estão ficando mesmo de ponta cabeça. E não é classicismo acirrado, nem mesmo mero “antiquismo” da alma. É simplesmente aversão ao casuísmo social, apatia e ética comportamental. É como se o correto fosse aprendido na escola, mas aqui fora, no mundo “outro”, as coisas devessem ser às avessas, de modo contrário, através de um contraditório burro, surrado, sem vínculo com o que poderia ser mais leve e consciente. O título da coluna desse mês tem a ver com o que, mais uma vez, andam passando nas telinhas, uma visão esporádica do que seria a vida real, interpretadas por autores de cabeça cansadas e ideias retrógradas mal interpretadas e que acabam passando a sua interpretação errônea ou torta como se fosse a mais legítima verdade, ainda por cima criando um modismo recheado de besteirol. Por exemplo: o que é o big brother pra você? Bom, sei que ele não passa de uma casa repleta de pessoas bombadas, conversando idiotices, durante três meses. No entanto, ali tem gente nua ao vivo banhando, fazendo sexo embaixo de cobertores que expõem os clássicos movimentos sexuais, gente falando mal uma da outra, dentre outras orgias e fofocadas. Mas o que há de especial nisso e porque as pessoas ligam a TV, gastando energia elétrica e boa parte ainda liga para votar em dia de paredão, ajudando a compor o prêmio de milhões dos "heróis” (como diz o Pedro Bial), e a enriquecer mais ainda os donos do programa? É porque as pessoas adoram a vida alheia, adoram ver a intriga dos outros, adoram perder tempo com o que é banal e que em nada irá contribuir com o seu crescimento, seja social, político ou espiritual. As pessoas adoram “barraco”, ainda mas agora que ele está sendo implantado na cabeça dos mais frágeis culturalmente como algo necessário, belo e politicamente correto.

Outro exemplo dessa institucionalização exacerbada do “barraquismo” é a novela de Glória Perez. A autora, que no meu ponto de vista, escreve desconectada com a realidade e suas novelas não passam de réplicas mal acabadas das últimas que a Globo teimou em colocar no ar e ainda enaltecer, é bem ruinzinha de interpretação da realidade alheia e da realidade dos outros. É como se tivessem que institucionalizar á força a forma grosseira de falar como a correta e aceitável. Fico triste quando poucas vezes assisto de relance a interpretação de personagens que na favela só falam gritando, só se divertem na laje, só vivem em bares e adoram ser “espertos”, no sentido mais pejorativo da palavra. Acaba passando para todos que na favela só existe pessoas assim. No entanto, sabemos que o lado da favela ou comunidade, que poderia ser mostrado, como os inúmeros serviços sociais, as pessoas inteligentíssimas que passam em grandes concursos públicos e a educação que eles recebem de pais trabalhadores e educados, ficam ofuscada por uma imagem truculenta que é passada para o grande público. Adoram confrontar o grito comportamental com a educação, dando sempre a entender que a grosseria é mais válida do que a educação. A exemplo temos os entraves entre a bela personagem semi-nua de Bruna Marquesine, a Lurdes, que vive em pé de guerra com o mordomo da casa de uma rica madame. Na forma em que as guerrinhas são mostradas entre eles, o ridículo é sempre conotado ao mordomo, que é mostrado como o chato, antiquado e desatualizado: a moda agora é ser descolado e mal educado, há tendência de se resolver tudo “a La Tate Quebra Barraco”.

Como todos estão lendo, o correto ficou errado e vice-versa. As coisas iam mudar mesmo, mas o rumo tortuoso depende do modismo e daqueles que tem o poder de fazer de uma simples má interpretação da realidade o correto para multidões embebidas pela magia do acaso social. Há falta de verossimilhança nas vidas das pessoas, elas aprendem durante anos a forma correta de tecer os caminhos e num pouco ensinamento fácil e desconecto, elas passam a aplaudir a sua própria miséria cultural e racional: símbolos de uma burrice extrema, embebida num projeto televiso de os tornar ainda mais burros. Parece não haver relação, mas a partir do momento em que as pessoas deixam de refletir e que deixam a TV interpretar a realidade delas exibidas e representadas ali, há um risco maior de a sociedade torna-se cada vez mais agressiva, com um rápido processo de “deseducação”, tal confundido com democracia e liberdade de ir e vim. Não é possível controlar a vida de quem quer que seja e isso não poderá ser admitido mesmo, mas o direito à liberdade não deve ser confundido com a “libertinagem”, que acaba por criar uma sociedade que reverencia o avesso de todos os bons aspectos que a afirmam. Tomara que a tentativa da “institucionalização do barraquismo” seja abortada pela própria sociedade que passe a reconhecer que somos capazes de interpretar a realidade que nos rodeia e não aquela que tentam nos passar através de textos pobres e irreais, com deturpações diversas da nossa inteligência.  
 

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