quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Leia entrevista de Flávio Dino ao UOL - Dino diz que não fará a política da perseguição administrativa

Carlos Madeiro
Do UOL, em São Luís
Aos 50 anos, o ex-deputado federal Flávio Dino (PC do B) se tornou, domingo (5), o primeiro comunista eleito governador de um Estado no país. Vencedor com 63,5% dos votos válidos dos maranhenses, ele promete iniciar um novo ciclo no Estado, mas não para estatizar ou coletivizar nada, mas sim, “implantando o capitalismo” no Maranhão.
Em entrevista ao UOL, Dino afirmou que o Estado precisa quebrar o modelo de governo a serviço de poucas famílias que mantiveram no poder por meio século e, assim, estimular a competitividade e ingresso de novos empresários.
“Isso leva a mais investimentos e expansão da riqueza”, disse.
Durante a conversa, o novo governador do Maranhão também falou dos desafios à frente do cargo, como superar o indicadores sociais negativos, a crise no sistema prisional, anunciou as primeiras medidas de governo a partir de 1º de janeiro de 2015 e fez uma previsão de como deve ser o comportamento na oposição do grupo ligado aos Sarney.
UOL – Como o senhor pretende usar a ideologia comunista em seu governo?
Flávio Dino – Sobretudo com o compromisso da mudança pela igualdade. Durante a campanha, falaram muto sobre comunismo, que ia implantar o comunismo, e eu falava sobre a etimologia da palavra: comunismo é comunidade, comunhão. Dizia: ‘defendemos que haja uma comunhão mais justa da riqueza. Aqui no Maranhão essa é grande questão. Temos uma contradição entre o 16º maior PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil e as últimas colocações dos indicadores sociais, o que mostra que tem algo errado. O PIB deveria gerar índices melhores, mas não gera pela concentração. A gente precisa aumentar a riqueza, não há duvida, mas garantir que o aumento não seja absoluto. Essa luta política é PIB versus IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), pois o Sarney diz que é o PIB o mais importante, e eu digo que é IDH. Então do comunismo se aproveitam valores e princípios. São possíveis medidas inspiradas nesses valores, mas no limite de legalidade. Não vamos estatizar, nem coletivizar nada, mas buscar a distribuição.
Mesmo sendo comunista, o senhor falou muito durante a campanha em incentivar a concorrência, atrair empresas, práticas capitalista. Não é contraditório?
Aqui temos uma arranjo patrimonialista clássico: confusão do privado e a submissão do público, sempre a serviço de três famílias: Sarney, Lobão e Murad. Nossa vitória interrompe esse ciclo e desamarra esse nó da economia do Maranhão. Isso melhora as condições para que haja mais competição. Na nossa avaliação e na dos economistas, isso leva a mais investimentos e expansão da riqueza. Nesse sentido econômico, sempre falava de um choque de capitalismo. Vamos fazer o capitalismo no Maranhão. Garantir que os empresários saibam que há regras do jogo, e essas regras não serão rescindidas ou revogadas de acordo com família A, B ou C.
Como o senhor pretende reduzir a pobreza do Maranhão, já que o Estado possui poucos recursos?
Primeiro, usando bem o dinheiro público disponível. No momento em que você tem uma gestão melhor, com probidade, você mobiliza recursos. Nós temos o Fundo de Combate à Pobreza do Maranhão. Onde é aplicado, ninguém sabe. São 200e poucos milhões por ano, mas não tem transparência. Na hora que você pega esse dinheiro, você foca em melhorar o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) rapidamente.
Quais suas medidas iniciais no governo?
Vamos fazer uma campanha de alfabetização, no sentido de mutirão, não sozinho, mas mobilizando igreja, sociedade. E vamos pegar as 20 cidades e investir na geração de renda, que é o viés mais rápido de melhorar o IDH. A renda é tão baixa que se você faz um arranjo produtivo local, e o governo compra o produto, você duplica a renda da cidade em dois anos. Nós vamos focar nisso com políticas transversais.
Uma das críticas do seu opositor era de que há, em seu plano de governo, uma promessa de dobrar o contingente policial, mas que não há recursos para isso.
A nossa meta é para quatro anos, e vai se condicionar à meta de crescimento da receita. O que ele fala é futurologia. É uma meta necessária. É impossível fazer segurança com o número de policiais que temos. Hoje, a violência cresce, o tráfico cresce, e como vai conter? Com polícia na rua.
O Maranhão tem a pior relação de médicos por habitante do país. Como manter e atrair profissionais?
Duas coisas faremos imediatas. Um: residência médica. Hoje exportamos médicos. A gente forma 300 médicos, mas só têm 100 vagas de residência. Tem de ter um vigoroso programa de residência e um programa de valorização da atenção básica. Minha ideia é dar um complemento para tentar reter esses médicos no Maranhão. Uma coisa de mais longo prazo, e é meta do governo, é fazer com que os cursos funcionem em plena capacidade.
A crise no Complexo Prisional de Pedrinhas ainda permanece, com fugas, mortes, rebeliões. O que senhor fará com o local?
Vamos retomar a autoridade de Pedrinhas, quebrar o poder das facções lá dentro. Nós vamos retirar todos os terceirizados da atividade-fim, que é uma imposição legal. O cara está num barril de pólvora ganhando salário mínimo. A chance disso dar certo é zero. E isso só foi feito por negócio, porque o cara que terceiriza é sócio do Jorge Murad [marido de Roseana Sarney]. Vamos usar os agentes e ter apoio nacional. Quero mostrar que uma politica de direitos humanos é eficaz. Precisa ter aliados, não se consegue retomar o controle de 2.000 pessoas sem aliados. É preciso conquistar as pessoas, não é só colocar um policial em cada cela. Vamos fazer isso com muita dedicação, porque é simbólico. Temos coisas aqui que são simbólicas, como vender a casa de festas. São coisas para mostrar essa mudança. E também temos algumas obras-símbolo, como a rodovia Paulo Ramos-Arame, que é importante para o Maranhão. Essa estrada foi paga num dos governos de Roseana e ela não existe.
O senhor pretende fazer uma auditoria nas contas do governo Roseana?
Uma auditoria no sentido da devassa, não. Vamos fazer na medida em que os problemas surgem. Aí sim, surgindo, vamos auditar, rescindir e ir atrás do ressarcimento. Isso é inegociável. Quem deu o prejuízo, vai ter de pagar.
Após uma campanha acirrada e com tantas acusações, como o senhor espera a transição?
Devo até o fim da semana anunciar a equipe, e espero que, a partir daí, a governadora designe os interlocutores e dê os dados necessários. Espero que o grupo tenha uma atitude mais respeitosa do que teve durante a campanha. Ao mesmo tempo, se houver sabotagem, vamos combater com muita dureza. Depende mais deles do que da gente.
Como o senhor espera que se comportem os Sarney na oposição?
Acho que o núcleo ligado a esses três clãs –que têm pessoas intimamente ligadas– vai fazer oposição dura. Mas é do jogo.
Aqui no Maranhão muito se fala que o Jackson Lago, em 2009, foi cassado sem provas e por conta da força dos Sarney. O senhor teme algo assim novamente?
Não. Acredito que eles devem entrar com alguma ação para manter um tensionamento. Mas não acredito, primeiro, porque não há razão. Eu conheço bem esse grupo e conheço bem esse jogo. Eu vivo disso há 24 anos. Então, a gente tomou todas as cautelas e não há razão objetiva. Mas vão dizer: ‘mas no caso Jackson também não havia’. Mas ali havia uma conjunção muito desfavorável a ele, que era o Sarney presidente do Senado, e era a filha dele. A situação agora é bem diferente.
Na primeira entrevista que o senhor deu após a vitória, disse que a oligarquia acabou para sempre. Por que tanta certeza?
O grupo vai continuar existindo e com maioria na Assembleia. O resultado eleitoral mostra que o tempo deles passou. A gente ganhou com imensa maioria nas cidades. Tem cidade que tivemos 90% dos votos. É algo muito eloquente nesse sentido. Eles moveram todo o arsenal tradicional deles, de dinheiro, compra, ataques, mentira, e não funcionou.
Mas porque funcionou por 50 anos e nesta eleição falhou?
Porque se exauriu. Houve mudanças sociais. A internet foi uma aliada expressiva, nos deu velocidade para combater a mídia tradicional deles. O Bolsa Família também, porque cria independência do chefe político local. E também teve o crescimento da urbanização. São fatores estruturais. E eles chegaram nessa eleição com um desgaste administrativo mais forte. Teve a crise de Pedrinhas, o doleiro Yousseff preso aqui, depois o Paulo Roberto Costa. Esses eventos ajudam a entender o resultado.
Como o senhor espera a receptividade do governo federal a um novo governo maranhense?
Espero parceria, colaboração e um julgamento técnico das nossas propostas. Vamos fazer bons projetos, e isso com certeza vai resultar em muitas parcerias, qualquer que seja o presidente.

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