quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Até que ponto o direito de expressão pode incidir sobre a cultura espiritual alheia?

POR CLÁUDIO CAVALCANTE 


Até que ponto a liberdade de expressão pode ser livre ao ponto de tornar-se insensível à crença e à fé alheias? Lendo artigos na internet e assistindo algumas das muitas matérias jornalísticas na TV sobre o ataque ao semanário francês, Charlie Hebdo, tentei entender o bojo central de toda a questão. Cheguei a conclusão de que há um fosso muito grande, largo e fundo, entre o “escrachado” jornalismo do Charlie Hebdo e o povo muçulmano. Não é essencialmente uma questão de fé, religião, crença; e sim cultural. As questões culturais são capazes de separar até pessoas de uma mesma família, moradores de uma mesa residência.
Notem como a forma de fazer humor no Brasil está mudando e que aquele humor a todo custo, intrínseco a questionamentos inteligentes, bem elaborados, que pegam pessoas famosas de surpresa, muitas vezes em situações nada agradáveis; está cada vez mais em evidência. Você já deve ter observado quantas pessoas não gostam de passar os vexames públicos ao responder perguntas desconcertantes, elaboradas para, literalmente, pegá-las na contra-mão. Reparem que são todos do mesmo país, que vivem sobre regime democrático; culturas iguais ou próximas, mas mesmo assim existem aqueles que abominam esse tipo de produção humorística, tendo outros que até mesmo buscam a justiça para não serem mais importunados, alegando o direito subjetivo à privacidade. Agora imaginem uma revista que utiliza o mesmo método humorístico para criticar o Deus (Alá), o emissário (Maomé) e os fieis (povo muçulmano). Trata-se de tentar brincar com pessoas que não aceitam tais intervenções humorísticas, não entendem esse liberalismo editorial e que culturalmente não conseguem sorrir de algo que utiliza, escrachadamente, a base de sua fé, tal que é a essência mais pura de sua formação cultural. E olhem aí novamente a danada da cultura.
Não estou aqui fazendo apologia ao terror ou dizendo que é metralhando uma redação inteira de jornal que tais impasses seriam resolvidos. O terror é abominável em qualquer situação, pois o diálogo sempre será o melhor caminho para resolver situações que causem tão profundos desentendimentos. No entanto, é necessário que a cultura espiritual do outro seja respeitada, assim como você gostaria que a sua o fosse. Quantas vezes já deparei-me com correntes de sabotagem na internet contra produções humorísticas que tem como tema central a figura de Jesus Cristo. Quantas vezes já presenciei conversas acaloradas de discordâncias entre pessoas de religiões diferentes que não aceitam o tratamento dado ao seu Deus, seu representante maior, seu líder espiritual. As pessoas, muitas vezes da mesma formação cultural e mesma religião, não aceitam determinadas formas de intervenções e isso é um direito que elas tem.

Criticar, repetidamente as figuras que formam uma determinada religião, impondo aos criticados que aceitem indiscriminadamente a crítica lançada, é cercear e intimar o outro ao limite de sua liberdade do direito de gostar ou não da crítica. E é justamente isso que está acontecendo na França. O semanário Charlie Hebdo brinca de criticar Maomé, não dando o direito aos muçulmanos de não aceitarem as críticas lançadas contra sua religião, traduzindo as mesmas através de cartuns, impondo uma democracia mascarada sobre o outro, como se a cultura francesa, humoristicamente falando, fosse a representante daquilo que é correto e a muçulmana a inadequada. Isso incide contra a visão espiritual de um povo que não consegue sorrir dessa forma despojada de humor, tratando-se meramente de uma questão cultural oriental que difere cem anos luz da ocidental. Isso teria que ser respeitado e como tudo demais é veneno, aqueles que vislumbram a liberdade de expressão francesa, por uma questão de respeito e civilidade, poderiam encontrar na cultura do outro um limite respeitoso para que situações como estas, que afetam toda a humanidade, não chegassem ao limite que chegou: uma meia dúzia de intelectuais fazendo chacota do emissário dos muçulmanos e uma legião de muçulmanos preparando células do terror para agir no mundo acidental.     

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