quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pegadas da Lava Jato indicam: Eduardo Cunha tinha um feudo na Petrobras e foi à guerra quando perdeu espaço

Eduardo Cunha não gosta do governo Dilma nem o governo Dilma gosta de Eduardo Cunha. Os movimentos de aproximação, até aqui, serviram como um pacto informal, e jamais bem-sucedido, de não-agressão. A beligerância dos dois lados era clara e noticiada desde que o atual presidente da Câmara era líder do PMDB na Casa e já boicotava os projetos do governo.
Os motivos da discórdia, parece claro agora, não estavam relacionados a qualquer implicância com os olhos ou a vestimenta da presidenta Dilma Rousseff. Nem ao modo rude de falar do
então ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Nem à forma como o governo tentava, já no desespero, emplacar o seu pacote de ajuste fiscal no Congresso. Nem à indignação com as pedaladas, agora condenadas pelo TCU, para fechar as contas em 2014.
A birra, conforme todos os indícios apontados até agora, é porque Eduardo Cunha tinha ascendência sobre um grupo instalado na Petrobras e, por algum motivo, ainda a ser explicado, essa ascendência ruiu. Ou foi limitada. Daí a necessidade de sair dos bastidores e dar a cara para incorporar, na ausência de uma oposição escalada em postos-chave, como a presidência da Câmara, a figura do líder anti-governo que joga cascas de banana para o inimigo e aponta a desarticulação política deste como responsável pelo tombo.
Essa ascensão na Petrobras, sempre narrada mas jamais assumida, permitiu, segundo investigadores da Lava Jato, que o deputado fosse beneficiado em uma transação para a exploração de um campo de petróleo no Benin, na África, em 2011. Pelo negócio a Petrobras pagou US$ 34,5 milhões, dos quais um empresário, Idalécio de Oliveira, embolsou US$ 31 milhões e repassou, sempre segundo a investigação, US$ 10 milhões a um lobista. Este, identificado como João Augusto Rezende Henriques, preso desde setembro em Curitiba, enviou o equivalente a R$ 5,1 milhões para uma conta atribuída a Eduardo Cunha, que redistribuiu o dinheiro para outras contas, inclusive para a mulher, que investiu os recursos em academias de tênis na Flórida e em instituições de ensino na Inglaterra e na Espanha. A pujança econômica dos últimos anos pode ser resumida aqui: já não se faz crise política com Fiat Elba ou mensalinhos de restaurante na Câmara.
As pegadas do dinheiro deixam clara a ascendência do deputado no esquema. Segundo um delator da Lava Jato, Cunha era quem dava a palavra final nas indicações para a Diretoria Internacional da Petrobras, entre os quais a do ex-diretor Jorge Luiz Zelada, preso e investigado na operação. 
Zelada foi limado do cargo em 2012, durante a gestão Graça Foster, pessoa de confiança de Dilma na estatal. Isso talvez explique a revolta de um algoz declarado: quem mexeu no seu feudo foi uma aliada da presidenta, que passou a acumular inimigos desde então. A aliada durou meses no posto.
Em tempo: não há, aparentemente, razões para acreditar que as mudanças resultaram em uma limpeza de fato na companhia. Outros grupos haviam se instalado ali, e a briga, conforme sugerem os relatos, era menos por diferenças gerenciais do que por território. Um desses grupos se rebelou quando perdeu espaço. Como este espaço foi reocupado é a pergunta que policiais e procuradores tentam responder há mais de um ano.
O fato é que é Eduardo Cunha, proprietário de contas secretas na Suíça, segundo o Ministério Público local, e acusado por cinco delatores de envolvimento em propinas na Petrobras, é quem tem a chave da bomba que pode implodir o governo já na próxima terça-feira. Daí o pisar em ovos de governistas e oposicionistas nas horas que antecedem o tiroteio – que, tudo leva a crer, terminará como a cena final de Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino.
Não fossem as suspeitas de que petistas se beneficiaram do mesmíssimo esquema, e as indefensáveis manobras fiscais e discursivas para esconder a crise, fechar as contas e se reeleger, Dilma poderia, uma hora dessas, bater no peito e dizer que está sendo punida por fazer a coisa certa. Sua chegada ao poder, afinal, coincidiu com a perda de espaço de Cunha, deputado denunciado ao STF, numa diretoria tomada, conforme a investigação, por cupins. A suspeita sobre aliados na Lava Jato, a demora em peitar os cupins e o esforço para incorporá-los ao governo na última reforma ministerial para salvar o mandato tiram dela essa narrativa.
A atual crise política parece, mas não é, uma briga de torcidas na qual um dos lados sairá vitorioso. No atual cenário, vencedores e vencidos jogam para não morrer no fim.

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